Deivid Vasconcelos

5 de maio de 2026

Barco no mar sob luz melancólica

Há tardes em que o mundo parece recuar alguns passos para dentro de nós.

A praia, nesse instante, não é apenas cenário,é espelho. O mar não está apenas à frente; ele também se move por dentro, como se cada onda trouxesse de volta aquilo que a gente tentou esquecer ao longo dos dias. O vento não sopra só na pele, mas atravessa alguma parte invisível onde habitam as dúvidas que não tiveram coragem de virar palavra.

É nessas horas que a ideia de desistência não chega como um gesto brusco, mas como um sussurro cansado. Não uma fuga imediata, mas uma pergunta silenciosa: até onde vale continuar sendo quem se está tentando ser? E, logo depois, outra ainda mais difícil: o que exatamente está sendo abandonado,o caminho ou a versão de si mesmo que já não cabe mais?

A inquietação do eu não grita. Ela se infiltra. Ela mora nos intervalos. Entre um pensamento e outro, entre um sonho que não se realizou e outro que ainda não nasceu. Às vezes, a gente se perde não porque saiu de si, mas porque ficou tempo demais dentro de si mesmo, encarando as próprias margens sem conseguir atravessá-las.

Sentado na areia, com o tempo dissolvendo-se em cada onda que quebra, há uma estranha sensação de suspensão. Como se a vida tivesse apertado pausa só para observar. E nesse silêncio ampliado, surgem versões nossas que não pedem permissão para existir, elas apenas aparecem, carregando aquilo que fomos, aquilo que fingimos não ser, e aquilo que talvez nunca consigamos nomear.

Desistir, então, não é só abandonar o externo. Às vezes é uma vontade de sair de dentro. Deixar de ser o lugar onde tudo se acumula. Mas há algo paradoxal nisso: mesmo quando pensamos em partir de nós, continuamos aqui. Observando. Sentindo. Voltando.

E talvez seja exatamente aí que mora a inquietação mais profunda,não na incapacidade de seguir, mas na impossibilidade de deixar de ser quem se é, mesmo quando se deseja outra forma de existir.

A tarde segue lenta. O mar não responde. E o eu, esse território sem fronteiras, permanece aberto, como uma praia que nunca termina de ser percorrida.

Escrito por Tonares.